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Aos Artistas Com Carinho

Eu nasci numa família de artistas. Meu avô Cyrilo Gerin nos precedeu e nos deixou este legado. Vovô era um poeta autêntico e reconhecido. Ganhou prêmios por suas poesias e foi condecorado pelo que escrevia.

Sua primeira filha, minha mãe, levou a poesia para o ateliê da costura. Mamãe, enquanto trabalha com a agulha se distrai e vê sua concreta poesia adornando a pessoa humana. Hoje ela tece seus poemas nas confecções que faz para crianças necessitadas.

Depois veio eu, este aqui que está escrevendo. Encantei-me com o teatro. Lembro-me até hoje da primeira peça que assisti em minha vida que foi no teatro municipal de Ouro Preto – MG. Aquela noite foi tão marcante que futuramente me tornei diretor de dramaturgia.

Tenho duas primas que também herdaram a arte de meu avô. Ambas, hoje, profissionais da saúde, mas duas excelentes intérpretes, uma identificou-se mais com a poesia, a outra com as artes cênicas.

Mas tem um lado cruel na vida do artista: o fato de estar além do seu tempo! Essa realidade lhe confere criatividade, paixão, mas, também, muito sofrimento. O artista é como uma onda de rádio, disse um amigo; vive numa frequência que para compreendê-lo é necessário sintonizá-lo.

Se já é difícil driblar a vida como artista, ainda mais o é quem, certamente, enveredou-se pela interpretação, quer seja na poesia, quer seja na dramaturgia.

Digo isso e, permita-me ilustrar com um exemplo prático, dentre tantos outros que experimentei em minha própria vida. E olha que não me tornei um ator, mas um diretor de teatro.

Certa vez, já padre, antes de iniciar uma missa, mas já na procissão de entrada, eu ia passando e brincando com algumas crianças que estavam mais próximas do corredor central. Uma senhora que estava sentada ao lado de minha mãe, vendo o que eu fazia, teceu o seguinte comentário: “ele gosta mesmo de crianças ou só está representado?”

Minha mãe ficou triste. Mas veja se não dá para entristecer-se… A gente pensa que está dentro de uma igreja para rezar para Deus e tem a triste constatação de que se está sentado bem ao lado do Diabo*.

Ah artistas! Artistas, artistas… Diante de você não há neutralidade meus caros; ou se os ama ou se os odeia. Inferno e Paraíso sempre ao seu lado! Mesmo assim, digo com absoluta certeza de que qualquer artista, independentemente de sua modalidade, se cada um pudesse começar tudo de novo, não conseguiriam sobreviver se sua alma não fosse uma de artista.

Hoje eu inclino o meu corpo para frente e abro ainda mais os meus braços, mas não é para receber os aplausos de uma plateia que ora vibra e xinga, mas para dizer: Obrigado, Senhor Deus, por ter me dado este belíssimo dom: o de ser um artista. De outro modo eu também não conseguiria sobreviver.

* Diabo = divisor

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